Anos atrás descobri a existência dos produtos da Anbernic, um monstro conhecido por produzir portáteis de alta qualidade. Os produtos são tão bons que só de lembrar que vão cobrar uma taxa especial na importação desanima qualquer um. Foi por essas e outras que os chineses começaram a produzir versões mais baratas, na tentativa de fazer aquele dinheiro sujo.
Não demorou muito pra surgir gente famosa promovendo o produto em suas redes sociais. O pessoal espalhou essa ideia que o console era perfeito pra reviver nostalgia e quando você menos espera o mundo inteiro queria ter um. O problema é que muita gente foi paga pra falar apenas os pontos positivos de uma maneira bem superficial. Infelizmente, muita gente foi enganada.
Como eu tinha uma grana sobrando aqui em casa resolvi apostar. Eu literalmente comprei este produto porque achei importante compartilhar a minha experiência com todos vocês. Quem sabe um dia vocês queiram ou conheçam alguém interessado nesse console, procurem ler este tópico antes. Não estou sendo pago, até por que não sou influencer e influencer não é gente.
R36S - Origem e outras informações:
O melhor vídeo que encontrei sobre o produto.
Foi mal, Fiaspo.
O resumo da história é o seguinte: é tudo clone de um clone de outro clone. Primeiro surgiu um modelo que depois surgiu outro, porém um certo modelo ficou popular e devido a demanda alta o pessoal resolveu manufaturar em segunda mão. Daí apareceu outro pessoal que copiou a cópia, barateando ainda mais com chips de péssima qualidade e um OS satânico gravado na memória.
Com o passar do tempo as vítimas se uniram pra coletar informações e desenvolver estratégias pra conscientizar e orientar todos os interessados que desejam um R36S. Sim! Eles não só possuem uma comunidade na internet como tudo que você precisa saber se encontra na Wiki do produto. A parte mais engraçada é que muitos que compram nem sabe que esse website existe.
Foi uma experiência fantástica.
Quero dizer, é impossível não se contagiar pela alegria da compra.
A primeira coisa que percebi foi a qualidade da embalagem. A caixa tinha uma impressão diferenciada com detalhes vivos em relevo adesivo. Mais bonita ao vivo do que em fotos, eu garanto. O console veio embalado dentro de um saco plástico e protegido com um molde fino em EVA. A tela do produto tinha um adesivo protetor do qual não removi até agora. Parece ótimo até agora.
O meu instinto foi procurar indícios que eu fui enganado. Chequei a bateria, o serial escrito na PCB e a presença de dois chips de memória RAM. Eu estava tão entusiasmado com a compra que a última coisa que eu queria era conferir na internet se o que eu comprei era um clone ou não. Liguei o aparelho e fui recebido com um sistema ArkOS bacana, usando EmulationStation como frontend.
Essa luz azul aí é de ferrar com as vistas.
Julgando pelas imagens na internet eu podia jurar que era um produto leve. Ele é meio pesadinho por conta da bateria. O plástico parece resistente o suficiente pra aguentar o tranco. Os parafusos são longos, parece aqueles que a Nintendo usava nos anos 90. Possui duas entradas para cartão de memória e o cartão de fábrica nem nome possui, é uma qualidade questionável e assustadora.
A experiencia é agradável. Os botões são macios e o analógico cumpre o que promete. A sensibilidade do analógico é interessante, não sei como explicar, você tem que jogar pra entender a sensação. Parece que o personagem se movimenta com maior fluidez se comparando com as direcionais. Alguns usuários relatam dificuldade em usar comandos na diagonal. Posso entender o motivo.
A tela em IPS possui um brilho muito bom. É tão bom que se você usar no 30% vai dar pro gasto, mais do que isso é pedir pra gastar bateria a toa. Falando da bateria, ela dura em média 8 horas de jogatina interrupta. Isso é mais do que bom, principalmente se você é um daqueles que gosta de jogar durante viagens longas. A qualidade do som é mediana, não recomendo jogar com volume alto.
Quando o aparelho precisa carregar (e isso acontece lá pelos 25%) uma voz configurável interrompe a jogatina e o led começa a piscar em vermelho. Não tem mistério. Você desliga normalmente, engata um carregador não-turbo na tomada e deixa lá carregando por algumas horas. Por alguma razão o meu aparelho ligou sozinho após 1 hora de uso, deve ser uma maneira de avisar que acabou.
Evite ao máximo bater ou deixar essa beleza cair no chão.
Finge que é uma arma de fogo ou um bebê prematuro, sei lá.
O console portátil vem de fábrica com uma coleção questionável de jogos repetidos que ninguém sabe ao certo se estão corrompidos. O que sabemos é que o cartão de memória não possui credibilidade, comprometendo a funcionalidade do sistema. No meu caso os jogos compartilham espaço com o sistema no cartão de memória, sendo possível dedicar o segundo slot para jogos.
Após jogar o dia inteiro e aproveitar que já veio de fábrica com a bateria cheia, eu posso afirmar que este console é perfeito para jogos 2D. Ele possui energia o suficiente pra jogar Crash Bandicoot ou um Super Mario 64 DS, mas a sua especialidade são jogos lineares. Não recomendo jogar Nintendo 64 ou Dreamcast devido a péssima emulação, com direito a travamentos sinistros.
Infelizmente eu não sabia retornar ao menu principal sem apertar o botão de reiniciar o console. Esse péssimo hábito acelera a degradação do sistema, corrompendo o cartão de memória. Tudo que você precisa fazer é apertar o combo FN+X, clicar em Close Content e depois em Quit. Em alguns modelos a tecla FN dá lugar ao SELECT, mas agora já sabem: ignorem a tecla RESET.
O segundo dia:
O segundo dia já começou com surpresas desagradáveis. Eu lindamente fui jogar Donkey Kong Country e descobri que o meu progresso havia desaparecido. Isso foi um chute nas bolas porque eu chorei sangue pra superar Vulture Culture. Entretanto, percebi que alguns jogos já tinham salvado o progresso normalmente. Logo, pode ser um problema com a ROM.
Inseri o cartão de memória no meu notebook. Veio com 3 partições, duas delas BOOT e uma EASYROMS. Não é possível adicionar novos jogos porque preciso adicionar uma letra na partição dos jogos. Alguns usuários já comentaram que o recomendado é fazer backup da imagem do cartão e gravar em um SanDisk 64GB. Quem sabe um dia, meus amigos, quem sabe um dia.
Na tentativa de remediar a situação entrei no menu do RetroArch e desativei tudo relacionado a savestate. Alguém mencionou na internet que o sistema pode se confundir ou até mesmo ignorar o arquivo da SRAM caso este não esteja sempre na pasta padrão. Fora que fazer um save forçado drena a qualidade do cartão de memória, não sei... eu desconfio bastante.
O terceiro dia:
Após carregar pela segunda vez resolvi fazer alguns testes. Tentei jogar alguma coisa do Dreamcast, mas a experiência foi tão ruim que saí imediatamente. Pra piorar, 1 minuto de Dreamcast comeu 10% da bateria. Não sei como. Foi nesse momento que eu lembrei: eu uso shaders de contraste. Fiz uma rápida pesquisa na internet e descobri que essa função drena a bateria.
Jogar sem efeito de vídeo não desmerece a experiência, principalmente se você está tentando simular uma televisão de tubo. Quanto mais exigente for mais quente o aparelho vai ficar e mais bateria vai consumir. Infelizmente eu já me acostumei com a opção que corrige o contraste, não consigo jogar sem. Pra minha sorte é bem levinho mas não tenho certeza se o aparelho se importa.
Como se não fosse o suficiente eu descobri que o problema de jogos não abrirem (ou se quer salvarem) é um sinal de que o cartão de memória tá estragando. Liguei o console pela última vez apenas pra coletar todas as informações necessárias, assim qualquer ida eu vou efetuar o backup do sistema em um cartão novo da Sandisk. Em breve trago notícias!
A primeira semana:
Após retornar da faculdade (eu estudo psicologia) criei coragem e fui procurar no centro da minha cidade um cartão de memória original e um leitor universal USB. Pra variar as casas chinesas só vendiam as duas coisas juntas e da pior qualidade possível. Visitei a loja de um velho conhecido e por uma facada de noventa reais comprei um Sandisk Ultra 64GB cinza/branco.
Cheguei em casa e preparei o terreno para instalação. Inseri o SD com o adaptador e usando o programa Win32DiskManager gravei a MESMA IMAGEM do sistema que já funcionava antes. Soquei o cartão no aparelho mas o capeta não queria ligar. Era só o que me faltava. Após uma rápida pesquisa na internet descobri que era pra eu substituir a nova pasta BOOT com a do meu backup.
O aparelho ligou, cogitou em funcionar mas logo emitiu um alerta que algo deu errado. Para minha sorte o console iniciou um apagão e criou todas as pastas de acordo com os novos arquivos da pasta BOOT. Após alguns minutos o console funcionou normalmente, a primeira coisa que eu vi foi aquela chorona da Celeste. Agora vem a parte mais legal: inserir novos jogos!
O cartão original possui jogos de origem duvidosa: alguns em formatos questionáveis e outros sequer abriram. Como sou dedicado transferi a minha coleção privada de jogos de inúmeros consoles diretamente para o meu computador usando magia negra. O que? Baixar na internet? Ninguém aqui baixa ROM da internet, meu filho. Tem uma arma apontada na minha cabeça.
Vou brincar um pouco com o que tenho organizado aqui.
Em breve direi o que acho desse tal R36S!
O primeiro mês:
O console funcionou normalmente.
Quero dizer, isso quando ele raramente não trava em tela branca.
Pela ironia do destino o meu carregador da década passada resolveu explodir na tomada. Aproveitei o meu extensor USB pra carregar diretamente pelo cabo satânico. O pessoal na internet diz que assim estraga mais rápido, mas eu estou pouco me importando. Como eu apenas ligo pra jogar meia hora por dia e deixar guardado até me lembrar que existe não tem problema nenhum.
Entretanto, pra reverter o pior eu fiz algo. Fui nas configurações do sistema e coloquei pra coisa funcionar no modo POWERSAVE. Ou seja: economia total de energia. Se antes o console consumia 30% de bateria em duas horas, agora consome 10% em apenas cinco. Infelizmente jogos que apelam pra efeitos especiais pesados ou sprites enormes sofreram com lag momentâneo.
Considerações finais:
Diga-se de passagem que, se você quiser ter um desses e não tem dinheiro pra investir no importado, conseguir o melhor por pouco é questão de sorte. É possível deduzir pela embalagem se vale a pena ou não, mas isso não garante o que vem dentro. Já vi casos em que alguém pagou trezentos reais pra descobrir que comprou um clone com sistema desconhecido.
Definitivamente não é um aparelho para leigos, é bem coisa de nerd. Se você comprou pra uma criança pequena que só quer jogar fique sabendo que é questão de semanas pro infeliz quebrar o produto. Tem jogos que não salvam, bastante deles repetidos em pastas erradas e a origem da coleção é questionável. Pior mesmo é saber que se você queimar o cartão de memória acabou tudo.
Agora, se você sabe o que está fazendo é a coisa mais linda do mundo. Ignorando o ritual satânico de gravar a imagem do sistema em um novo cartão de memória se torna mais prático brincar com o que se tem disponível. E mesmo que você não queira jogar nada é uma ótima alternativa pra manter guardado aquela sua coleção completa de algum console que você ama.
Pontos Positivos:
+ É barato.
+ Material resistente pra um clone chinês.
+ Os botões são confortáveis e silenciosos.
+ A bateria dura o suficiente para horas de entretenimento.
+ É possível criar a sua própria categoria na central de emuladores.
+ Consegue rodar nativamente jogos de computador pelo PortMaster
Pontos Negativos:
- Não supera o produto original.
- A qualidade do produto varia de acordo com o manufaturador e revendedor.
- O abuso do botão RESET corrompe o sistema.
- Leva alguns dias para calibrar corretamente a bateria do aparelho.
- O led é tão forte que dá agonia.
- Slot secundário só reconhece marcas específicas de cartão de memória.
- Alguns jogos não conseguem salvar o jogo normalmente.
Vale a pena... apenas se vencer a loteria do improvável.
Bom, pelo menos não é o jogo do Tigrinho.

